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REVISTA
LEITE B
NOVEMBRO
1995
O
que acontece quando o leite vira longa vida
As
perdas nutricionais acontecem durante o período de estocagem.
O leite longa vida fica com menos cálcio, fósforo,
proteína, matéria gorda e lactose, conforme comprova
vasta literatura.
O sabor "cozido" é ínfimo no leite pasteurizado
e considerável no longa vida.
Existe grande
número de autores fazendo restrições qualitativas do leite longa
vida. Segundo Bobbio & Bobbio (1984), a pasteurização não produz
alterações significativas nas proteínas ou nos lipídios do leite,
enquanto o processo de esterilização normal ou UHT, produz alterações
que podem resultar na formação de H2S e numa diminuição do teor
de lisina assimilável.
A utilização do leite esterilizado deve, obrigatoriamente, considerar:
(1) o maior custo de produção; (2) a exigência de tecnologia mais
sofisticada; (3) a exigência rigorosa de matéria-prima de alta qualidade;
(4) o preço mais elevado pelo valor agregado em tecnologia; (5)
eventuais alterações das características organolépticas, bromatológicas
e/ou físico-químicas (Chacon, 1977).
Fatores - Este último autor é enfático
ao afirmar que qualquer discussão acerca do valor nutritivo do leite
UHT, deve levar em conta dois fatores: o efeito do processo sobre
o produto e a influência do armazenamento prolongado. Além disso,
o sabor "à cozido" é ínfimo em leite pasteurizado, considerável
no leite longa vida fresco e marcante no leite esterilizado.
Os pesquisadores Porter & Thompson (1972) detectaram perdas significativas
de vitamina B6, vitamina B12, ácido ascórbico e ácido fólico, durante
períodos prolongados de armazenamento do leite UHT e na dependência
do nível de oxigênio residual durante o processo.
Cuidados - A produção de leite esterilizado
exige cuidados especiais e um deles é representado pela qualidade
da matéria-prima, a qual deve apresentar um controle rigoroso quanto
as suas características físico-químicas e microbiológicas.
No parecer de Souza (1976), a qualidade inicial da matéria prima é fator
fundamental para a qualidade final do produto, salientando que quanto
menor o número de esporos no leite crú, tanto menor o número a ser
destruído e, por conseguinte, menor o número de esporos capazes
de resistir ao tratamento térmico.
Mercados - Panetta e outros pesquisadores
(1992), salientaram que matérias-primas comprometidas nunca produzirão
produtos de boa qualidade e que sejam competitivos em mercados exigentes.
Embora submetidos a pasteurização ou esterilização, suficientes
para destruírem as floras vegetativas de microorganismos mesófilos
e psicrotróficos, habitualmente encontrados em leite contaminado,
esses processos são inoperantes para neutralizar proteases e lipases
produzidas pelos mesmos microorganismos.
Num extenso estudo sobre o valor nutritivo de leite pasteurizado e esterilizado,
Schaafsma (1980), concluiu que cerca da metade das vitaminas B1,
B2, B6 e, especialmente B12, ácido fólico e ácido ascórbico, é provavelmente
perdida se o leite for esterilizado em duas etapas (processamento
UHT e acondicionamento asséptico) e for estocado por período longo
em embalagem translúcida.
Amostras - Preocupados com as alterações
do leite UHT durante o armazenamento, Samel e outros especialistas
em tecnologia alimentar (1971) analisaram amostras desse tipo de
leite, colhidos ao nível de mercado.
Eles concluiram que:
(1)
o tempo para início do processo de geleificação não depende do grau de
destruição de proteína, como também parece não ser a proteólise
a primeira causa da geleificação;
(2)
no leite UHT as proteínas sofrem severas modificações durante a estocagem,
as quais são independentes uma das outras e conduzem à coagulação
final do leite;
(3)
tais modificações incluem a proteólise, e uma progressiva perda de estabilidade,
sob condições que favorecem a agregação das micelas de caseína.
São decisivas as posições de Schimidt-Hebbel (1974) a propósito dos aspectos
bacteriológicos do leite esterilizado: sua capacidade de conservação
depende essencialmente do conteúdo de esporos mesofílicos e/ou termofílicos
que sobrevivam ao processo de aquecimento, e da contagem inicial
de esporos, que está estreitamente associada à contagem total de
bactérias.
Por esse motivo, segundo ele, a qualidade bacteriológica do leite cru,
destinado ao processo UHT, deve satisfazer pelo menos às exigências
apresentadas pelo leite de consumo destinado à pasteurização.
Americano - O professor Sebastião Teixeira
Gomes, da Universidade Federal de Viçosa, ao comparar o mercado
brasileiro de leite com o americano, salientou as seguintes posições:
(a) o consumo de leite integral foi reduzido na América doNorte
de 3,33% ao ano, no período de 1974 a 1991, enquanto o consumo de
leite magro cresceu, 5,74% ao ano e o de leite desnatado, 4,23%
ao ano; (b) praticamente todo o leite consumido nos Estados Unidos
é fresco, pasteurizado e de excelente qualidade; (c) a longo prazo,
o mercado brasileiro deve seguir o americano, ou seja, deverá prevalecer
aqui também o consumo de leite com menor teor de matéria-gorda,
pasteurizado e com maior vida útil na prateleira; d) o custo final
do leite pasteurizado e longa vida é diferente, sendo que o custo
da embalagem do último é cerca de dez vezes mais elevado.
Quanto à recente redução do ICMS do leite longa-vida decretada pelo governo
do Estado de São Paulo, o professor Sebastião Gomes afirma que a
medida não favorece ao produtor paulista. Ao contrário, penalizou-o,
pois criou mais condições para importações de leite longa vida proveniente
de outros estados brasileiros e até mesmo de outros países, como
os integrantes do Mercosul.
Enfatizada - A necessidade da qualidade
da matéria-prima utilizada na fabricação do leite longa-vida ser
de nível superior, é enfatizada tanto pelos pesquisadores que já
estudaram o assunto, como pelos fabricantes de equipamentos de uperização
e embalagem asséptica.
Nos países de pecuária leiteira desenvolvida, quando da introdução do
leite longa-vida, já existia matéria-prima disponível com a qualidade
adequada e em quantidade suficiente. No Brasil é o contrário. Nossas
bacias leiteiras, principalmente aquelas que por razões de custos
da matéria-prima abastecem as empresas fabricantes de leite longa-vida,
ainda não estão capacitadas a produzirem em quantidade matéria-prima
com a qualidade exigida para esse tipo de produto.
Proibidos - O emprego de estabilizantes,
como o citrato de sódio (autorizado pelo SIF, desde que declarado
no rótulo), o fosfato dissódico e o bicarbonato de sódio (estes
últimos proibidos pelo órgão fiscalizador) preenchem essa lacuna,
na medida em que possibilitam a utilização de matéria-prima de qualidade
abaixo daquela recomendada pelos especialistas.
A utilização de estabilizantes no leite longa-vida, permitindo sua fabricação
a partir de matéria-prima de qualidade inferior àquela que seria
necessária se seu uso não fosse autorizado, se não inibe, pelo menos
retarda o desenvolvimento qualitativo da produção de leite no país.
Samuelson e outros estudiosos (1966) relatam que o aquecimento a ultra
altas temperaturas causa hidrólise e decomposição de proteínas no
leite. Eles observaram que o leite submetido a altas temperaturas
apresenta um aumento no teor de amônia e uréia, quando comparado
ao leite pasteurizado, indicando degradação protéica. Observaram
ainda uma diminuição de aminoácidos essenciais como a metionina,
tirosina e fenilalanina.
Perdas - O pesquisador Thompson (1969) concluiu
que se o leite UHT não é desaerado durante o processo, pode ocorrer
em 20 dias perda completa do ácido ascórbico e ácido fólico. Após
90 dias de estocagem há 40% de perdas das vitaminas B6 e B12. Na
estocagem de leite esterilizado em frascos claros expostos à luz
por 3 horas, a perda de ácido ascórbico foi total e ocorreram altas
perdas de riboflavina, ácido fólico e vitamina B12.
O tratamento do leite pelo processo térmico de esterilização UHT acarreta
perdas nutricionais maiores daquelas que ocorrem quando o produto
sofre pasteurização; até porque o leite longa vida é necessariamente
pasteurizado antes do processamento UHT.
Essas perdas porém, não foram consideradas significativas pela maioria
dos autores abaixo citados:
MC Cance & Wiiddwon's (1992) - Comparando
a composição dos diversos tipos de leite de consumo na Inglaterra
encontrou, para o leite esterilizado, menores concentrações de sais
minerais (sódio, cálcio, magnésio, fósforo e zinco) e de vitaminas
(retinol, B6, B12, ácido fólico, biotina e vitamina C), quando comparado
ao leite pasteurizado.
Favier e outros (1987) - Estudaram na França
as perdas de ácido fólico, maiores no leite UHT do que no pasteurizado.
Ichikawa e outros (1983) - No Japão, observaram
perdas de tiamina, riboflavina, ácido fólico e vitaminas (B6, B12
e C) decorrentes dos processos de pasteurização, UHT e esterilização.
Pizzoferrato e outros (1983) - Na
Itália, estudaram as perdas de lisina no leite pasteurizado e UHT
e concluíram por uma maior perda no leite UHT. Concluíram, após
estudos "in vitro", que o leite pasteurizado apresentou
maior digestibilidade.
Mottar & Naudts (1979) - Apresentam
estudos onde se observa uma maior perda de lisina, ácido fólico
e vitaminas B12 e C no leite UHT, quando comparado ao leite pasteurizado.
Hong (1982) - Na Coréia, relatou perda de
30% de vitaminas hidrossolúveis no leite UHT e desnaturação de proteínas,
ainda que seu valor biológico não seja alterado. Ainda que o processamento
UHT não altere consideravelmente as características nutricionais
do leite, os autores de maneira geral mencionam como importante
fator de perda significativa de nutrientes o período e a temperatura
de estocagem do produto final.
Assim:
Chacon (1977) - As perdas de ácido fólico e
ácido ascórbico que podem ocorrer durante o armazenamento do produto,
são devidas à presença de oxigênio no interior da embalagem, em
conseqüência da utilização de sistema que não utiliza vácuo para
refrigeração.
Favier e outros (1987) - Observaram perdas significativas
de ácido fólico no leite
UHT após estocagem de 2 a 4 meses, considerando seus níveis
baixos em comparação ao leite pasteurizado.
Ichikawa e outros (1983) - Relataram que após 2
a 5 meses de estocagem há perda de quase toda a vitamina C e metade
da vitamina B12 e do ácido fólico.
Niiketic e outros (1983) - Analisaram leite UHT
após 60 dias de estocagem e observaram perdas de proteína, lactose,
matéria-gorda, cálcio e fósforo.
Vujiric e outros (1978) - Concluíram que a gordura
do leite UHT decresce marcada e progressivamente com o aumento de
temperatura e do tempo de estocagem. Proteína e lactose, também
diminuem, porém com pequenas diferenças.
Artigo escrito
por José Cesar Panetta, médico veterinário,
professor titular do Departamento de Medicina Veterinária
Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária
da USP;Vera Regina Monteiro de Barros, médica veterinária,
MS, do Serviço de Inspeção Federal do Ministério
da Agricultura e Reforma Agrária,SP; Antônio José
Xavier; técnico em laticínios, consultor da AEX Consultoria
e Serviços.
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