Folha de São Paulo - Tendências/Debates
- 27 de maio de 2002
Cheiro
de engodo
BENEDITO VIEIRA PEREIRA (*)
É fácil descobrirmos o "censor" que impede
a informação de chegar ao público: o poder
econômico
Surpreendente
o artigo publicado neste espaço no último dia 23/4,
sob o título "O revolucionário leite longa vida".
Primeiro, porque seu autor, o sr. Almir José Meirelles, diretor-presidente
da ABLV (Associação Brasileira de Leite Longa Vida),
poderia ter submetido suas afirmações ao debate de
representantes da cadeia produtiva do leite que participaram de
uma mesa redonda, nesta Folha, no dia 26/3.
O presidente da ABLV teve uma grande oportunidade de expor seus
argumentos naquela ocasião, mas preferiu ocultar-se e atacar
de surpresa, protegido da possibilidade de ser, de pronto, contestado.
A entidade que defende o leite longa vida parece esquecer-se de
que, antes de sua "revolucionária" criação,
a população brasileira conviveu durante quase um século
com o leite pasteurizado. A ponto de o leite ser ainda hoje considerado
um dos alimentos mais ricos e puros à disposição
do ser humano em todas as fases de sua existência.
O que a Abilp (Associação Brasileira das Indústrias
de Leite Pasteurizado) vem defendendo desde sua criação
é que se ofereça ao consumidor brasileiro a mais ampla
gama de informações que lhe permitam fazer a escolha
do leite que irá consumir. E por que isso não vem
ocorrendo? Porque surgiram os verdadeiros motivos dessa "revolução"
que se tenta atribuir à existência do leite longa vida.
Tenta-se ocultar, dentre outras, as seguintes evidências:
O leite pasteurizado é mais rico nutricionalmente que o longa
vida. Isso porque o processo de pasteurização protege
grande parte das vitaminas e proteínas, enquanto o de ultrapasteurização
dá maior importância ao período de validade
do leite do que à manutenção de sua composição
nutricional.
Para suportar a altíssima temperatura a que é submetido
para ser transformado em longa vida, o leite cru sofre adição
de estabilizantes como, por exemplo, o citrato de sódio.
A matéria-prima utilizada na produção de leite
longa vida é, em grande parte, inferior à utilizada
para o leite pasteurizado. São leites quase sempre vindos
de regiões distantes dos grandes centros consumidores, que,
não fossem ultrapasteurizados, teriam de ser consumidos em
seus locais de origem. Transformados em longa vida, chegam às
grandes cidades, porém com menor qualidade que o leite produzido
nas bacias tradicionais, formadas em sua maioria por produtores
especializados.
Argumenta-se que o leite pasteurizado precisa ficar sob refrigeração
para não deteriorar, enquanto o longa vida suporta até
180 dias fora da geladeira. Ora, nada mais favorável ao leite
pasteurizado, que é um leite fresco, vivo, que contém
microorganismos, sim, mas todos eles não-patogênicos
e absolutamente necessários para compor a riqueza nutricional
desse alimento. Já o leite longa vida perde grande parte
de seus nutrientes durante o processo de esterilização
a que é submetido. E vai perdendo mais e mais a cada dia
que permanece estocado. Após seis meses, imagine o leitor,
o produto que estará sendo colocado à disposição
do consumidor...
A longa estocagem do leite longa vida permite o desenvolvimento
das bactérias termorresistentes que podem estar presentes
no produto e, após multiplicadas, causar toxiinfecção
alimentar. Esses microorganismos se desenvolvem tanto em altas quanto
em baixas temperaturas e não modificam o sabor do leite.
Daí o risco de toxiinfecção.
Estas são apenas algumas questões que a Abilp e várias
outras entidades do setor leiteiro nacional gostariam de ver amplamente
esclarecidas para o consumidor brasileiro. Porém, as informações
têm sido negadas a este consumidor.
E por que dizemos que têm sido negadas? É fácil
descobrirmos o "censor" que impede a informação
de chegar ao público: o poder econômico. Desde a introdução
do leite longa vida em nosso país, os produtores de leite,
que deveriam ser os maiores interessados em toda e qualquer tecnologia
que viesse a fortalecer o mercado lácteo nacional, têm
sido a parte menos beneficiada.
E quem ganha com o leite longa vida? Ganha quem produz a embalagem.
Ganham também os supermercados, que baixam custos com refrigeração
e têm facilitado o processo de estocagem.
Quem promove o longa vida são os supermercados, anunciando
na mídia leite a preços irrisórios. E, pasme
o leitor, quem também promove o leite longa vida é
o fabricante da embalagem.
São esses os adversários que as entidades que produzem
leite pasteurizado têm enfrentado durante a última
década. E nem é preciso dizer que se trata de uma
competição desigual, uma vez que as margens de lucro
embutidas no leite não permitem investimentos maciços
em propaganda, como fazem os "amigos" do leite longa vida.
É por isso, leitor, que os produtores e fabricantes de leite
pasteurizado no país lutam com tanto ardor pelo espaço
da informação na mídia.
Uma "revolução", quando é imposta
garganta abaixo da população, não passa de
um engodo. Talvez seja esta a expressão mais adequada para
explicar a presença do leite longa vida no mercado brasileiro:
um engodo engendrado pelo poder econômico, acumpliciado com
a falta de informação do consumidor brasileiro.
(*)
Benedito Vieira Pereira, 57, advogado, pecuarista, é diretor-presidente
da Abilp (Associação Brasileira das Indústrias
de Leite Pasteurizado).
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