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LEITE
Briga
dos produtores por participação no mercado levanta
questões sobre a qualidade do produto consumido no país
Debate
opõe pasteurizado e longa vida
O
crescimento da participação do leite longa vida nos
últimos anos no mercado brasileiro desencadeou uma guerra
entre produtores. De um lado estão os produtores de leite
pasteurizado -o leite fresco, que deve ser refrigerado- e de outro
os de leite longa vida, que pode ser estocado por até seis
meses sem refrigeração.
A briga pelo mercado levanta questões sobre a qualidade do
leite vendido ao consumidor, independentemente do processo de produção.
Em debate que a Folha promoveu na semana passada sobre o assunto,
uma nova batalha dessa guerra foi travada. O principal argumento
das associações dos produtores de leite pasteurizado
é que o leite longa vida, em seu processo de industrialização,
perde valor nutricional.
De acordo com o presidente da Abilp (Associação Brasileira
da Indústria de Leite Pasteurizado), Benedito Pereira Vieira,
o processo de ultrapasteurização, conhecido também
como processo UHT (Ultra High Temperature, ou temperatura ultra-alta,
em inglês), utilizado para a fabricação de leite
longa vida, diminui o valor nutricional do produto. Segundo ele,
no processo, o leite perde grande parte das vitaminas C e B6 que
detém e é privado dos lactobacilos, microrganismos
importantes para o bom funcionamento da flora intestinal.
Ayrton Vialta, diretor do Centro de Tecnologia em Laticínios
do Ital (Instituto de Tecnologia de Alimentos), diz que, de fato,
o processo de ultrapasteurização reduz o valor nutricional
do leite.
Processo
"A ultrapasteurização é um processo no
qual o leite é aquecido a temperaturas muito altas, acima
de 140C. A essa temperatura, praticamente todos os microrganismos
presentes no leite são eliminados, mas, com eles, algumas
vitaminas e outros nutrientes também são perdidos",
diz Vialta.
O contra-argumento utilizado pela indústria de leite longa
vida, nas palavras da veterinária e gerente de informação
ao consumidor da ABLV (Associação Brasileira de Leite
Longa Vida), Daniela Rodrigues Alves, é que essas perdas
não são relevantes. Segundo ela, a perda de vitaminas
e lactobacilos causada pelo processo de ultrapasteurização
não é significativa, pois o leite não é
considerado fonte primordial desses nutrientes.
"O leite é considerado fonte de outras coisas, como
cálcio e proteínas. A perda de vitaminas e lactobacilos
não é importante", diz ela. Ou seja, mesmo que
esses componentes sejam perdidos no processo, isso não alteraria
o valor nutricional real do longa vida.
O aquecimento do leite a altas temperaturas no processo UHT é
realizado para acabar com todas as bactérias e os microrganismos
presentes no leite. Isso torna possível a armazenagem do
produto sem refrigeração, desde que em embalagens
apropriadas, por cerca de seis meses. Já na pasteurização,
o aquecimento -necessário, em princípio, para eliminar
apenas agentes causadores de doenças- é mais brando:
entre 72C e 75C.
Segundo o professor José Alberto Bastos Portugal, do ILCT
(Instituto de Laticínios Cândido Tostes), em Juiz de
Fora (MG), por causa do processo térmico menos agressivo
utilizado na pasteurização, o leite assim processado
de fato conserva a maior parte de seus nutrientes naturais.
"O leite pasteurizado, pelas características do processo
ao qual é submetido, tem realmente mais nutrientes que o
longa vida", diz Portugal. "Isso, porém, não
significa que ele seja nutricionalmente melhor que o UHT. Na verdade,
um é tão bom quanto o outro."
Padrão
Em sua defesa, a ABLV apresentou documentos do Ministério
da Agricultura e da FAO (Organização de Alimentos
e Agricultura, na sigla em inglês), ligada à OMS (Organização
Mundial da Saúde). O ministério afirma que as perdas
nutricionais decorrentes da ultrapasteurização não
são relevantes.
"O nível de determinadas vitaminas do leite é
essencialmente o mesmo na matéria-prima submetida a pasteurização
ou a tratamento UHT", diz seu parecer.
Já segundo a FAO, os dois tipos de leite são "equivalentes".
"O leite tratado à temperatura ultraelevada goza de
todas as vantagens do leite pasteurizado ou esterilizado em forma
convencional e não tem nenhum de seus inconvenientes",
diz o relatório da FAO.
Dieta
O presidente da Associação Brasileira do Leite Tipo
A, Lair Antonio de Souza, porém, argumenta que, em uma dieta,
o leite é apenas um dos componentes. Assim, mesmo que a quantidade
de nutrientes presentes no leite pasteurizado não seja alta,
ela existe, e isso faz dele um alimento mais apropriado que o leite
longa vida.
Segundo ele, por conta do tratamento, o valor alimentício
de uma porção de leite pasteurizado é maior
que o de uma porção equivalente de leite longa vida.
"No leite que você toma no café da manhã
existe uma porção de vitaminas que vão compor
sua dieta para satisfazer as necessidades do seu corpo. Então,
o leite longa vida não é melhor nem pior, ele só
tem menos valor alimentício [que o leite pasteurizado"",
disse Souza.
(JOSÉ SERGIO OSSE)
LEITE
EM DEBATE
"O
poder econômico que está do outro lado é visivelmente
maior do que o que está do lado do pasteurizado"
"O
governo está sendo irresponsável não assinando
a lei que foi até publicamente votada por todos os segmentos
que compõem a cadeia [do leite]"
BENEDITO VIEIRA PEREIRA
presidente da Abilp (Associação Brasileira da Indústria
de Leite Pasteurizado)
"Não
estou aqui para saber se o gosto [do leite pasteurizado" é
melhor ou não, mas para discutir qualidade. Mostrem, em termos
técnicos, porque um leite é melhor do que o outro"
"Em termos nutricionais, não existe diferença
entre os dois produtos. Isso não sou eu ou a ABVL quem diz,
mas a FAO e o Ministério da Agricultura em documentos sobre
o leite"
DANIELA RODRIGUES ALVES
gerente de informações ao cliente da ABVL (Associação
Brasileira de Leite Longa Vida)
"O
leite C deve ter 40% [do poder alimentício do leite cru],
porque passou por um monte de sujeira, quase não é
nem leite. É como o longa vida. Ele tem tudo, até
leite ele tem"
LAIR ANTONIO DE SOUZA
presidente da Associação Brasileira de Leite A
Nova
regulamentação vai acabar com o tipo C
DA REPORTAGEM LOCAL
Tanto
os produtores de leite pasteurizado quanto os de longa vida concordam
em um ponto: a solução para os problemas do setor
é a aprovação da portaria 56, que modifica
a regulamentação do mercado leiteiro nacional. A nova
lei, elaborada em 1998, mas que até agora não foi
assinada, estipula a criação de um programa de melhoria
da qualidade do leite produzido no país.
Segundo o texto da nova regulamentação, serão
criados novos padrões de qualidade para o leite no país,
envolvendo principalmente os métodos de resfriamento pós-coleta.
Quanto mais tempo leva para o leite ser resfriado, maior é
a proliferação de bactérias.
Cronograma
A portaria 56 estipula que o padrão oficial passará
a ser de no máximo 40 mil bactérias por mililitro
de leite. Isso, na prática, determina o fim do leite tipo
C, que pode ter até 150 mil bactérias por mililitro.
Essas mudanças devem seguir um cronograma gradual com fim
previsto para 2008.
Tanto a Abilp (Associação Brasileira da Indústria
de Leite Pasteurizado) quanto a ABVL (Associação Brasileira
de Leite Longa Vida), antagônicas quanto à qualidade
dos tipos de leite brasileiros, acreditam que aprovar a lei determinaria
um avanço na cadeia produtiva do leite.
Concorrência
Os produtores de leite pasteurizado acusam a indústria de
leite longa vida de concorrência desleal, já que o
produto tem custos de produção e de transporte mais
baixos. O leite C não precisa ser refrigerado durante o transporte.
Outra crítica da Abilp diz respeito ao poder indireto exercido
pelos supermercados do país, que, por causa da praticidade
de estocagem do longa vida, boicotariam o leite fresco. (JSO)
Matéria-prima do leite longa vida é
questionada
DA
REPORTAGEM LOCAL
Um
das características do leite longa vida mais atacadas pelos
produtores de leite pasteurizado é a qualidade da matéria-prima
utilizada para sua fabricação. Eles alegam que esse
leite é de qualidade inferior, produzido em zonas que se
dedicam há relativamente pouco tempo à pecuária,
principalmente na região Centro-Oeste. O leite utilizado,
tipo C, é o mais barato e o que segue os padrões de
produção menos rigorosos.
De acordo com Lair Antonio de Souza, presidente da Associação
Brasileira de Leite Tipo A, o longa vida é feito com leite
produzido em região chamada de fronteira, que tem preço
mais baixo. Segundo ele, porém, o leite utilizado é
de baixa qualidade mesmo para um tipo C.
"Como o leite lá é mais barato e de má
qualidade, eles fabricam o longa vida, que é mais prático
para ser vendido nos grandes centros. De outra forma, esse leite
estragaria no caminho", diz Souza.
A ABLV (Associação Brasileira de Leite Longa Vida)
defende-se afirmando que o leite utilizado na produção
do longa vida está em conformidade com a regulamentação
do governo para o produto. "O leite que utilizamos passa por
análises técnicas para verificar se está dentro
dos padrões determinados pela lei", diz Daniela Rodrigues
Alves, gerente de informação ao consumidor da ABLV.
Segundo o professor José Alberto Bastos Portugal, do Instituto
Cândido Tostes, a qualidade do leite utilizado no processo
UHT realmente poderia ser um problema. "A qualidade do leite
utilizado na fabricação do longa vida é uma
das coisas que poderiam ser questionadas", diz.
"Mas a utilização de leite de má qualidade
no processo UHT estraga as máquinas utilizadas. E nenhuma
empresa em sã consciência iria querer estragar suas
próprias instalações, que, dado o grau de tecnologia
envolvido, são muito caras", completa. (JSO)
PRÓ
PASTEURIZADO
Produtor
diz que tratamento UHT elimina nutriente
DA
REPORTAGEM LOCAL
Os
produtores brasileiros de leite pasteurizado alegam que o produto
que passa pelo tratamento UHT (ultrapasteurização),
conhecido como leite longa vida, é inferior ao pasteurizado.
Eles se baseiam em pesquisas que demonstram perdas de nutrientes
decorrentes das altas temperaturas às quais o leite é
submetido no processo. Por causa do calor, vitaminas e lactobacilos
são eliminados com a ultrapasteurização.
Ainda segundo eles, o produto utilizado na produção
de longa vida é de má qualidade, sem o controle necessário
para a extração e o transporte.
Eles também apontam o fato de que, para garantir a durabilidade
do leite longa vida, há adição de citrato de
sódio.
PRÓ
LONGA VIDA
Qualidade
segue padrões definidos pelo governo
DA
REPORTAGEM LOCAL
Os
representantes da indústria de leite longa vida adotam a
estratégia de defender seu produto sem atacar o leite pasteurizado.
Afirmam que as críticas ao longa vida não são
relevantes. Não consideram significativa a perda de nutrientes
ocorrida no processo UHT, já que os principais componentes
do leite, como o cálcio, resistem ao processo. E afirmam
que a qualidade do leite utilizado segue rigorosamente os padrões
do Ministério da Agricultura.
Quanto ao citrato de sódio, os produtores afirmam que a substância
está presente naturalmente no leite -a adição
apenas repõe perdas decorrentes do processo.
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